sábado, junho 28, 2014

Copa dos arrependidos

O fim primeira fase dos jogos revelou uma nova classe de brasileiros.
É a classe dos arrependidos. Eles duvidavam desde o começo do sucesso do mundial. De tanto assistir o JN, ler a Veja e dar ouvidos a papo de colegas reacionários, alimentaram  o discurso do contra: contra a construção dos estádios, contra os jogos, contra a vinda de estrangeiros para cá, contra a realização das obras de infra-estrutura. Ironizaram o legado da Copa e insistiram na alegação do tal gasto excessivo.
Hoje eles assistem assiduamente as  partidas na TV, debatem a qualidade dos jogos na família, vibram com os lances bem feitos e, de repente, sem perceber, assumem uma brasilidade reprimida. Admitem publicamente o orgulho de ser brasileiro e sentem-se felizes por isso.
É incontável o número de pessoas arrependidas por não haver lutado por ingresso para assistir os jogos. Quem foi ao estádio, leva até o copo da Coca-Cola prá casa para guardar de lembrança.
Agora é tarde.

segunda-feira, junho 02, 2014

Banestadense no divã

A sala está bonita. Mesa decorada com arranjos florais, canapés e salgadinhos de primeira. É o tratamento dispensado ao aposentado que participa das palestras promovidas pelo Plano de Saúde. Além das palestras motivacionais, de temas relacionados à saúde, os organizadores oferecem um delicioso coquetel de confraternização.

Tudo vai bem, até que – o regabofe farto ainda nem terminou – e já tem gente passando a sacolinha. Sem pedir licença, levam para casa, não só salgados e doces, como também arranjos e flores.

Jantar no Madalosso. O aposentado já vem preparado de casa. Tira a sacolinha de plástico amarrotada do bolso e, discretamente, mas não muito, coloca pedaços de coxa de galinha dentro. Os garçons olham atônitos, incrédulos.

Reveillon na Associação Banestado em Praia de Leste. Faltam 10 minutos para meia-noite. Um grupo domina a agitação em torno do buffet de frutas e champagne, decorado no maior carinho de frente pro mar. A queima dos fogos ainda nem começou. Uvas, ameixas, cachos de banana, são arrancados da mesa e levados para os quartos. Sem dó, nem piedade dos que querem brindar o novo ano.

E por falar em Praia de Leste

Encontro Nacional de Catadoras de Materiais Recicláveis, evento realizado na Associação para mais de 800 catadoras.

Os patrocinadores do evento ofereceram às participantes um jantar de primeira no restaurante da AB. O ambiente foi todo decorado com plantas, arranjos de flores, enfeite com velas e luzes. Para aquele público, um sonho.

O jantar termina. Os elementos de decoração e a comida não consumida ficaram no salão. Tudo na mais perfeita ordem e civilidade.

...

Dia desses, o comentário de um aposentado aqui na rede chamou a atenção. Revoltado, ele vociferou: “Não me sinto mais à vontade para ir na Associação. Imagine... até lixeiro se hospeda lá!”

quinta-feira, maio 29, 2014

O ontem e o hoje. E o amanhã?

Cinquentões de hoje tem viva na lembrança as muitas manifestações populares ocorridas na década de noventa, ápice do governo neoliberal FHC.

E não eram poucas. Trabalhadores do Brasil inteiro se organizavam, discutiam pautas e saiam às ruas cientes da legitimidade das reivindicações, dos direitos defendidos e das bandeiras de luta.

Nas datas-bases, sindicatos travavam batalhas setorizadas por melhores salários, condições de trabalho e benefícios sociais.

Por contrariedade aos rumos da política vigente, uma massa crítica cada vez maior saia às ruas a clamar por mudanças.

Os movimentos organizados tinham a consciência de que a estabilidade econômica era salutar para o país. Porém, não aceitavam a ideia de que a tal estabilidade fosse concebida à custa da exploração da classe trabalhadora. O povo estava cansado de sofrer, de esperar o bolo crescer para só depois vê-lo repartir.

Nas ruas, gente desempregada se revoltava com a venda do patrimônio público a preço de banana à iniciativa privada. Uma onda de privatizações tomou conta do país numa obediência cega ao Consenso de Washington.

O grito pela Reforma Agrária saia do campo e invadia cidades. Era preciso repartir a terra para plantar e depois colher. Não havia empenho nem prioridade para resolver a questão agrária. Os donos do poder preferiam o amém ao latifúndio e aos grandes proprietários de terras improdutivas.

O receituário neoliberal virou bíblia na era FHC.

Nos pronunciamentos só se ouvia falar no alto endividamento público interno e externo do Brasil, o que, para o governo, justificava a dependência ao capital estrangeiro e a escravidão vergonhosa ao FMI.

Outra justificativa usada pelos economistas para fazer o brasileiro parar de sonhar com a aposentadoria justa era o argumento de que a previdência social estava quebrada. Este motivo também era fartamente usado por eles para dificultar o reajuste do salário-mínimo.

FHC nunca ouviu o povo. Foi um governo explicitamente submisso às ordens lá de fora e ao grande capital. Enquanto isso, o mercado de trabalho dava mostras de encolhimento e milhões de trabalhadores perdiam seus postos de trabalho vítimas de demissões seriadas. Sem contar a desesperança dos jovens em poder estudar, trabalhar e ser alguém na vida.

Os jovens que obviamente não passaram por essa fase de horror acham que é exagero, que é chororô de petista saudoso. Mas não é. É a mais pura verdade.

Deu a louca no mundo

O povo retoma os movimentos. Diferente do jeito de reivindicar e de fazer política dos anos neoliberais, gente organizada por sindicatos pelegos, gente autônoma, gente liderada por pequenos partidos políticos, gente de grupos de ninguém sabe ninguém viu, fazem protestos financiados sabe-se lá por quem e com quais interesses . Enfim, uma massa que faz pose de insatisfeita com o sistema, sem saber que sistema é esse que o oprime e o que quer dele de verdade.

Se apresentam da noite para o dia como revolucionários do sabe-se lá do que e para quem. Misturam Copa do Mundo com saúde e educação, Neymar com salário, ignoram a justiça, negam acordos coletivos firmados via sindicatos e se acham donos da razão.

Confundem manifestação com depredação.

Se a polícia recua, é quebradeira, pichação, incêndio. Se usa a força, é autoritária e violenta.

Se o manifestante vai preso, é arbitrariedade da lei. Se a impunidade prevalece, é a justiça que falha.
Constituinte exclusiva para reformar a política arcaica é pouco. Urge uma constituinte exclusiva para repensar a alma do povo. Se é que Deus ainda é brasileiro.

Vida de humano

Na caminhada costumeira que faço com o Lilico nas manhãs, acompanhei hoje, sem querer, a abordagem dos agentes da FAS - Fundação de Ação Social, a três moradores de rua. Eles estavam sentados numa esquina próxima a minha casa.

Um se dizia cantor e às vezes cantarolava palavras desconexas. Outro alegou que havia brigado na família e que por isso estava fora de casa. O terceiro disse que estava ali porque era solidário aos demais. Disse ter casa e que não havia necessidade da prefeitura se preocupar com eles.

Todos chapadésimos. Entremeavam frases reais a delírios.

Não houve argumento que os convencessem a sair dali. Um deles, o mais novo, era velho conhecido da equipe da prefeitura. Ele dizia que as assistentes sociais do abrigo o trataram bem nas vezes que esteve lá, mas que o problema é a falta de cachaça. Disse que tinha medo de ficar preso. “Mas como o senhor ficou preso, se o senhor saiu de lá e agora está de novo na rua”? Perguntou a agente. “Não adianta dona, lá eu tremo e fico nervoso por causa da droga”, disse o rapaz de 31 anos.

Outro, com a cabeça enfaixada e marca de pontos recém retirados do rosto inchado e ainda ferido, foi o mais resistente. Disse que tinha onde morar e que estava rondando porque brigou com a irmã. Segundo ele, a irmã o quebrou de pau. Sob qualquer intervenção, levantava a voz em tom agressivo.

O cantor estava relax. Enrolado num cobertor sujo, imundo, olhava para o céu e cantarolava baixinho. Enquanto os agentes faziam anotações, olhou-me e perguntou se os três incomodavam a vizinhança. Perguntou também se, como moradora do bairro, eu havia sentido falta de alguma coisa. Falei que não.

Os agentes pediram que eu assinasse como testemunha, foram embora e eu também.

Ah! O mais moço lembrou que vai acompanhar os jogos da Copa no radio de pilha. Ele carrega o radinho no bolso.

Vida de Cão, não. Vida de Cão é bem melhor.

domingo, maio 25, 2014

Cinza constante no ceu, chuva fina na sacada e a echarpe tirada da gaveta para aquecer o pescoço.

Junho se aproxima. O inverno começa a mostrar a cara.

Curitiba, devagar, retoma sua vocação ensimesmada.

domingo, maio 18, 2014

Síndrome coletiva de pessimismo pré-copa

Nelson Rodrigues criou a expressão Complexo de Vira-latas para traduzir o sentimento de inferioridade que assolou o brasileiro após a derrota do Brasil no mundial de futebol em 1950.

À véspera da Copa 2014 tendo o Brasil como sede, o sentimento vira-lata é visível, não apenas no âmbito do futebol - até porque os jogos nem começaram – mas no leque de serviços que o Brasil deve oferecer aos visitantes.

Em roda de amigos, esquinas, por toda parte, sempre tem alguém a dizer: “No Brasil nada funciona. Os aeroportos estão aos pedaços, o trânsito, a segurança estão à beira do caos. Essa copa vai ser uma vergonha!”

Sem arrogância, digo que conheço muitos países nesse mundão afora. Por onde passo, procuro observar costumes, mobilidade e funcionalidade das instituições.

Posso afirmar que o oásis almejado não existe em nenhum lugar do mundo. Todas as cidades, principalmente as de grande porte, apresentam problemas de urbanidade.

Será a favela de Munique menos desigual que a Rocinha? Será o engarrafamento das ruas parisienses convergentes ao Arco do Triunfo menos caótico que a Marginal Tietê? Mais uma pergunta. Se escolhidos a sediar uma Copa Mundial de Futebol, esses países recusariam?

Na verdade o povo tem é medo de acreditar em si mesmo. A atitude negativa nada mais é que o disfarce do otimismo envergonhado. É a proteção necessária para – se o Brasil falhar - estufar o peito e dizer: ”Viu, eu não disse!?

Se vivo, Nelson Rodrigues, substituiria o Complexo de Vira-Latas por Síndrome Coletiva de Pessimismo Pré-copa.

sábado, maio 17, 2014

Mais Médicos em Antonina

Inserida no programa Mais Médicos do Governo Federal, Antonina recebeu com muito carinho os médicos cubanos que irão cuidar das pessoas daquela cidade.

Nesta primeira etapa, vieram quatro profissionais dos nove previstos. Quis o destino que um deles morresse do coração, logo na chegada. Foi um grande choque e motivo de tristeza aos moradores da pacata Antonina.

Os outros três – dois homens e uma mulher – são muito simpáticos e tem olhar de bondade. Eles receberam da senadora Gleisi Hoffmann a mensagem de boas vindas em cerimônia no histórico Theatro de Antonina.

Após o evento

?déjame sacar una foto con usted? Perguntei.

Então nos deixamos fotografar com um orgulho danado em estar ao lado dos médicos.

“Estes são os médicos cubanos da nossa cidade”, dizia orgulhosa a dona do restaurante para os outros clientes que ali estavam.

A fome havia chegado e precisávamos urgente de um pastel de palmito.
Os dois médicos, a dona do restaurante, eu, a médica e a Serli